quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Cada qual com a sua Quimera



Sob um grande céu cinzento, numa grande planície poeirenta, sem caminhos, sem gramados, sem uma urtiga, encontrei vários homens que andavam curvados.

Cada um deles carregava nas costas uma enorme Quimera1, tão pesada quanto um saco de farinha ou de carvão, ou os apetrechos de um soldado da infantaria romana.

Mas a monstruosa besta não era um peso inerte; pelo contrário, envolvia e oprimia o homem com seus músculos elásticos e possantes; grampeava-se com suas duas vastas garras no peito de sua montaria; e sua cabeça fabulosa sobressaía acima da fronte do homem, como um daqueles capacetes horríveis com os quais os antigos guerreiros esperavam acirrar o terror inimigo.

Interroguei um desses homens, e perguntei-lhe aonde iam assim. Respondeu-me que de nada sabia, nem ele, nem os outros, mas que evidentemente iam a algum lugar, já que eram levados por uma invencível necessidade de andar.

Coisa curiosa de se notar: nenhum dos viajantes parecia irritado com a besta feroz pendurada em seu pescoço e colada em suas costas; dir-se-ia que a considerava como fazendo parte de si mesmo. Todos esses rostos cansados e sérios não demonstravam desespero; sob o céu, com os pés mergulhados na poeira de um solo tão desolado quanto este céu, eles caminhavam com fisionomia resignada daqueles que estão condenados a ter sempre esperança.

E o cortejo passou a meu lado e afundou na atmosfera do horizonte, no lugar em que a superfície arredondada do planeta se esquiva à curiosidade do olhar humano.

E, durante alguns instantes, teimei em querer compreender esse mistério; mas em seguida a irresistível indiferença se abateu sobre mim, e me deixou mais duramente oprimido do que eles próprios por suas esmagadoras Quimeras.

Charles Baudelaire

1. Quimera

Rubrica: mitologia grega.
monstro mitológico que se dizia possuir cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente e lançar fogo pelas narinas

7 comentários:

Anônimo disse...

Deixo ao seu critério prima !
Que tal farofa de ovo ?
Hehehehehehe
Beijuca !

Anônimo disse...

Pô, então faz qualquer gororoba aí que ta bom !
heheheheheh

Anônimo disse...

É! Danem-se as Quimeras!

Farofa-de-Ovo rules! :-D

¬¬º

.Intense. disse...

espero que vc tenha se visto como a Intense, e não como a estagiária hein!

ahuahuahuahuahuahuha


seu post me deu medo

;*

Anônimo disse...

Uau... que medo... rsrs... não, não, talvez eu esteja sensível demais... o fato é que se eu não desopilar minha cabeça não enxergo nem "batatinha quando nasce" de forma positiva... rsrsrs...

Beijos querida!

Ana P. disse...

Fiz uma associação com algumas coisas da minha vida e... me deu um certo desespero de mim.

Bruna disse...

Baudelaire é assim.. demais. hehe pra não dizer outra coisa..

"eles caminhavam com fisionomia resignada daqueles que estão condenados a ter sempre esperança." arrepiaa...

adorei. adorei o blog também.

bjs